sábado, 20 de junho de 2026

Sozinho mas não só

 

 

Há pessoas que gostam de estar sozinhas

Pessoas que precisam de estar sozinhas

Como eu

É que estar sozinho não significa sentir-se só

Uma coisa é não ter ninguém ao pé

Outra coisa é não ter ninguém que nos dê a mão, se for preciso

Podemos estar sozinhos sem sentir solidão

E podemos sentir-nos absolutamente sós numa sala cheia de gente

Estar sozinho não é estar só

É estar a sós

Estar a sós connosco

É sermos a nossa própria companhia

Ouvirmos a nossa voz de dentro, sem o ruído que vem de fora

E que silencia os nossos pensamentos

Estar sozinho não é ser sozinho

Estar sozinho é coisa do corpo

Sentir-se sozinho é assunto da alma

Às vezes, precisamos de estar sozinhos

sexta-feira, 19 de junho de 2026

Tenho Cancro sim. E depois?

 

Tenho cancro sim. E depois?

 

Vieste de mansinho e entraste

Alojaste-te sem permissão

A tua presença não desejada

Foi motivo de preocupação.

De mangas arregaçadas

E olhar fito no futuro

Galguei barreiras nunca esperadas

Quando frágil me fiz duro.

Indesejado inquilino que eras

Avancei até seres processado

Ganhei a questão sem recurso

Um dia foste despejado.

Deixaste os sinais com que vivo

A casa jamais foi igual

As paredes continuam ao alto

Os alicerces suportam o que é mal.

Vieste mansinho e ficaste

Mas nesta disputa a dois

Avanço firme no caminho

Tenho cancro sim. E depois?

 

 

domingo, 14 de junho de 2026

Para viver em paz

 

A cada instante…

 Preciso pousar o fardo

Baixar a tensão

Descansar a mente

Repousar o corpo

Desanuviar atritos

Assentar ideias

Coordenar movimentos

Acalmar o grito

Tranquilizar o espírito

Sossegar desejos

Refrear impulsos

Travar a oralidade

Apaziguar refregas

Extinguir ruídos

Para viver em paz.

 

sábado, 23 de maio de 2026

Conquistas

 

 

Cuida do que não é visível aos olhos

É fácil pôr vasos bonitos à janela para toda a gente ver

Mas a alma é terra mais difícil de lavrar

Não há terra mais trabalhosa, nem outra mais fértil

Troca o imediato pela conquista

O fácil pelo exigente

Sê a tua própria autoridade

Manda na tua vontade

Sê o teu mestre e o teu discípulo aprende contigo

Sobe para a tua vida e olha do alto para o que construíste e para o que te falta fazer,não deixes a tua vida ao abandono.

Não te limites a formular desejos

Essa não é a fórmula, pedir desejos pode ser o primeiro passo, mas não pode ser o único

É preciso caminhar muito, os desejos moram longe

Não sigas por atalhos, querer encurtar o caminho só aumenta a distância. Não peças o que não dás

Não podes receber sem entrega

Não peças paz se ofereces conflitos

Ninguém recebe amor só porque sim

O amor não é um presente de última hora

É estar presente em todas as horas.

 

segunda-feira, 18 de maio de 2026

Das minhas memórias

 

 

Acredito não ser exclusivo meu, mas acontece ficar sempre em mim

As memórias dos locais por onde passo, as boas e as menos boas

Um lugar que sempre lembro porque gostei, parecendo contraditório

O que dele ficou em mim, ou que de mim ficou nele

A Sala de Ambulatório. Serviço de Oncologia

Lembro o local como um jardim

Com flores de todas as cores, entre elas as rosas

A cor predominante era a amarela. Porquê essa cor gritante? Não sei...

Sei sim que as rosas rompiam por entre as grades do sofrimento

Embelezando a vida de quantos entravam no jardim

Nem de todos como constatei

Quando apuro os sentidos da memória lembro uma rosa

Com corpo de mulher que entrando no corredor do jardim

Vinha até mim e debruçando-se me perfumava

Hoje, embora nem tudo sejam flores

Continuo a admirar as rosas que povoam o meu caminho

São parte da minha vida, mesmo que o terreno tenha outras formas

É sobre os abismos que vão aparecendo que as rosas continuam a florir

A minha memória continua lá no local onde ressuscitei

Essas rosas da minha memória

Serão sempre o continuar de uma vida.

 

quarta-feira, 13 de maio de 2026

Amor silêncioso

 

 

Deixa que te fale ao ouvido

Ninguém mais precisa saber

Não é segredo

Mas não preciso apregoar

Amo-te

Mais que a vida

Quero-te

Como só Deus sabe

Se a felicidade pudesse dizer-se

Eu di-la-ia

Como ela é consequência

Quem me vê

Reconhece que ela existe

O brilho do teu pensar

Desperta frases que te não digo

A frescura dos teus desejos

Abre crateras no meu coração

De onde salta lava incandescente

Na rotina que me nego ver instalada

Debruço o olhar em ti

Como quem bebe a pura água

Que brota da rocha fendida

E porque isto é um bem precioso

Todos deveriam saber

Mas deixa que te fale ao ouvido.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

terça-feira, 12 de maio de 2026

Trbunal de saúde

 

 

Sem nunca ter culpa formada

Fui um dia a tribunal

Os locais de audiências

Foram salas do hospital.

Nunca havendo julgamento

Eu seria sempre o réu

Não fui ouvido em depoimento

Mas o veredito surgiu.

No tempo que apanhei de pena

Cumpri com todo o rigor

Bom foi ter nos carcereiros

Um tratamento de amor.

Quando saí em liberdade

Ainda com pena suspensa

Numa reabilitação

Que desejo seja extensa.

Por ter sido bem tratado

Um carinho reconhecido ficou

Apareço a testemunhar

Porque réu por ora não sou.

Se voltar a ser julgado

Na sala do hospital

Seja qual for a pena

Bem direi o tribunal.

 

 

 

 

Jardim Oncológico

 

 

 

Passar no jardim

Rever as flores

As várias cores

Perfume inalado

E em todo o lado

Em cada canteiro

No jardim inteiro

A beleza campeia

É o amor que rodeia.

E toda a flor

Me ensina melhor

Que para viver

Se ao jardim recorrer

Vou ter a certeza

Que as flores são beleza

Ornamentando para mim

Tão belo jardim.

 

 

 

 

 

 

                                                                                           

quarta-feira, 22 de abril de 2026

Viver na Luz

 

 

Se por Deus Foi escolhido

Sua Luz é minha estrada

Ser pobre não é defeito

Albergo um lugar no peito

Onde o amor faz morada.

 

Há luz que às vezes me deixa

Mas outra me vem iluminar

Feliz sou se a sinto

Porque a verdadeira Luz

Jamais se irá apagar.

 

Quando te não tenho imploro

Estar contigo transforma meu ser

Todos os dias desce a noite

Mas novo dia irá nascer.

 

Cada vez que o amor chamar

Ainda que custe avançar

Tomarei o meu caminho

Avançando sem vacilar

Há uma luz pra me guiar

Sou ave que encontrou ninho.

 

sexta-feira, 17 de abril de 2026

Beijo

 

 

Beijo na face pede-se e dá-se:

Dá?

Que custa um beijo?

Não tenha pejo: Vá!

Um beijo é culpa, que se desculpa:

Dá?

A borboleta beija a violeta: Vá!

Um beijo é graça, que a mais não passa:

Dá?

Teme que a tente? É inocente... Vá!

Guardo segredo, não tenha medo...

Vê?

Dê-me um beijinho, dê de mansinho,

Dê!

Como ele é doce! Como ele trouxe,

Flor,

Paz a meu seio! Saciar-me veio,

Amor!

Saciar-me? louco... um é tão pouco,

Flor!

Deixa, concede, que eu mate a sede,

Amor!

Talvez te leve, o vento em breve,

Flor!

A vida foge, a vida é hoje,

Amor!

Guardo segredo, não tenhas medo

Pois!

Um mais na face, e a mais não passe!

Dois...

quinta-feira, 16 de abril de 2026

A luta continua

 

 

Na tempestade não perdi o caminho

Em dias de temporal contínuo

Sempre me aguentei

Sem alforge nem sandálias

Mas de firme esperança nunca descalço.

Empunhando o bastão da fé

As ravinas são vales frondosos

Seguro no cajado do amor

O deserto se torna aconchego.

Viver feliz mesmo sofrendo

Por nunca me saber só

É loucura saudável nesta viagem

Que me permite viajar sem capa

A capa do coitadinho

Do doente estigmatizado.

Esse traje nunca vesti

Por muito oferecido que fosse.

Nunca escondi o meu rosto

No jejum sempre sorri

Sozinho nunca vencerei a guerra

Com ajuda esta batalha ganhei

Para outras que forem surgindo

Estamos aí.

E como disse há anos atrás

Não… ainda não morri.

 

 

 

 

segunda-feira, 13 de abril de 2026

A viagem até ser pão

 

Ainda não despontara a aurora, quando começou a Viagem.

Partiu ligeiro para o amanho da Terra.

Passou sem descanço pela Sementeira.

Dormiu decidido a erguer-se de madrugada para a Rega.

Algum tempo depois, viu germinar o que seria o doirado Grão.

Trabalhando sem temer a canseira, avança de Sacho na mão.

Cuidando constantemente, na espera do desejado Fruto.

Passou em consolação pela Colheita.

Caminhando sempre alegre, num Labor desgastante

Antes da altura de descanço para nova etapa.

Porque a Viagem continua.

Depois de passar pela Eira, vai para o Celeiro ou Espigueiro.

Pelo caminho fala ao Moleiro, levando o Cereal até ao Moinho.

Onde  será triturado e transformado, com a força da Água do Rio gemendo baixinho.

Continua com trabalho a longa viagem, agora com o Moleiro, essa nobre profissão.

Passa de Grão a gostosa Farinha, condimento essencial à alimentação.

Nas casas antigas ela era amassada, depois cozia no Forno bem quente.

Era a riqueza em casa do pobre, era a alegria da nossa gente.

Eis que chegamos ao Pão, términus da viagem cansativa mas boa.

Na alegria de poder saborear, a sempre desejada Fornada da Broa.                                                                   

 

José Álvaro Rocha

domingo, 12 de abril de 2026

Ter tempo para falar com ele

 

 

Sentei-me à esquina do tempo tentado a falar-lhe se me desse tempo

Devo ter dormitado no tempo da demorada espera

Passou por mim e nem o senti

Será que já regressou?

Bati inutilmente à porta do tempo

Esperei, mas ninguém me responde

Como o poderei encontrar?

Foi-me dito que ele só fala com quem lhe dá valor

Com quem sabe conviver com ele e não o despreza

Se me desse a oportunidade de me retratar

Enquanto espero vou avaliando o que dele perdi

Recuperando hoje o desperdício do passado

Por não saber o que ele me reserva futuramente

O que sempre valorizei no tempo

É ele não fazer aceção naquilo que concede

Todos o temos por igual embora haja quem diga não o ter

Uns simplesmente passam por ele

Outros gastam-no ignobilmente

Havendo também quem o respeite sabendo aproveitá-lo

Aquele que o perde nunca mais o encontra

Vou sentar-me à porta dele

Até ele me apanhar na esquina e dizer não ter tempo para mim

Quando ele esteve sempre aí e eu não o parei.

 

 

quinta-feira, 9 de abril de 2026

Piripire no seu... para mim é refresco

 

 

Problemas todos temos

Só os meus têm solução

Qualquer sabe resolvê-los

Sem eu pedir opinião

 

Sabes… devias fazer assim

Porque não vais a tal lado?

Isso resolvia eu bem

O meu sim que é complicado

 

Não esmoreças tem confiança

Não te deixes abater

Eu sim ando muito mal

A minha vida nem queiras saber

 

Dizem… tem fé que Deus é grande

Ele sabe os problemas teus

Pena é nos deles dizerem

Que mal fiz eu a Deus

 

Anima-te mesmo sofrendo

Tem paciência que é o melhor

Tu até podes morrer

Mas eu estou muito pior.

 

 

 

 

 

 

 

terça-feira, 7 de abril de 2026

Emigração

 

 

Solidão e Esquecimento são países de acolhimento.

Porque a emigração vai estando constantemente na ordem do dia, atrevo-me a falar dela sem ter qualquer experiência, pois nunca tive o espirito de emigrante nem a coragem de quem emigra, por isso faço uma vénia e tenho muito respeito por aqueles que necessitam de o fazer.

Não sei se é do conhecimento geral, mas sei de pessoas que são emigrantes sem sair do país, e mesmo não saindo de casa.

Há dois países que os recebem e tomam conta deles sem precisarem de passaporte ou visto de entrada.

Um é o País chamado “Solidão”, outro o “Esquecimento”. Entram nesses países á força, e ficam por lá até serem esquecidos por completo.

Só saem desses países de acolhimento para emigrarem para o além, para uma outra Vida. Aí até são chorados, não sei dizer se será motivado pela perda do emigramte, se pelo rebate de consciência (remorso) por ter estado exilado tanto tempo nesses dois países de acolhimento, a “Solidão” e o “Esquecimento”.

Esta emigração também eu contesto, não por motivos de politiquice, mas pela solidariedade que estes emigrantes me merecem.

 

 

 

segunda-feira, 6 de abril de 2026

Quem ama sempre ganha

 

 

Cheguei, vi, mas não venci

Mesmo assim não esmoreci.

 

Combati, pelejei, mas não ganhei

Mesmo assim sempre lutei.

 

Com pertinácia persistente

A inércia se combate

Se a força for interior

Nenhuma arma me abate.

 

Entrei no jogo a perder

O florir da sorte a não ver

Mas não me assumo perdedor

Revendo as jogadas na mesa

Guardo os dados na certeza

Que ganha sempre o amor.

 

terça-feira, 31 de março de 2026

Espiral da vida

 

 

Quanto mais forte a mola

Maior a projeção.

Dá o pulo mais alto

Quem a pisa para saltar

Se a mola está na cabeça

Até podem saltar ideias

Alojada no coração

Multiplica em acrobacias gestos de amor

Se a mola está nos pés

Pode dar no melhor salto em altura

Quando a mola se fica pela carteira

Despoleta em tirania

A mola do outro perde a força

Vive retesada sem articulação

Enferruja e paralisa

Dando força à mola tirânica

Sempre solta em forte bolso

Bem oleada e aos pulos

Fazendo pular a vida de alguns

Espezinhando a vida de muitos.

 

segunda-feira, 30 de março de 2026

Estações

 

 

Despertei com chuva, ouvindo notícias de Inverno.

Gentes fustigadas por temporais destruidores.

Assoladas por ventanias de miséria.

Lama de fome entrando pelas brechas das paredes abaladas.

Ideais voando nos talhados arrancados pelo forte vento.

Corpos mirrados pela trovoada que cruza os céus, último bastião da esperança.

Quando surgirá Abril?

Para quando a Primavera?

Até quando soprará o autoritário ciclone?

Quanto tempo durará a tempestade do cifrão?

Despertei com chuva desejando uma aurora solarenga, que me faça regressar a um verão mesmo fingido, para voltar à liberdade hipócrita que me concedem, se…

E depois virá o tempo outonal, das folhas caídas, dos frutos maduros, colhidos para as mesas dos ricos, donos deste pobre pomar.

 

“A desgraça de uma nação pobre é que em vez de produzir riqueza produz ricos” (Mia Couto).

 

Por isso o sol não brilha para todos, e continua o Inverno chuvoso, para quem precisa de calor nos estômagos vazios, para quem necessita de bonança numa vida sem teto.

 

“A ameaça da morte pela fome, lança o homem contra o homem,

e os cidadãos contra os seus governantes” (Johnsom).

 

Para quando a primavera?

Hoje ainda despertei com chuva, e o céu carregado de negro não agoira tempos melhores.

Quem dera uma manhã de nevoeiro, em que surgisse por entre a bruma, não o histórico Sebastião, mas outro Rei, o farol dissipador.

O amor em forma de cruz, o raio fulminante do exemplo de serviço.

Até podia despertar de novo com chuva.

Até podia ser Inverno.

Mas teria o calor da esperança, na espera do sol do verdadeiro verão.