quarta-feira, 22 de abril de 2026

Viver na Luz

 

 

Se por Deus Foi escolhido

Sua Luz é minha estrada

Ser pobre não é defeito

Albergo um lugar no peito

Onde o amor faz morada.

 

Há luz que às vezes me deixa

Mas outra me vem iluminar

Feliz sou se a sinto

Porque a verdadeira Luz

Jamais se irá apagar.

 

Quando te não tenho imploro

Estar contigo transforma meu ser

Todos os dias desce a noite

Mas novo dia irá nascer.

 

Cada vez que o amor chamar

Ainda que custe avançar

Tomarei o meu caminho

Avançando sem vacilar

Há uma luz pra me guiar

Sou ave que encontrou ninho.

 

sexta-feira, 17 de abril de 2026

Beijo

 

 

Beijo na face pede-se e dá-se:

Dá?

Que custa um beijo?

Não tenha pejo: Vá!

Um beijo é culpa, que se desculpa:

Dá?

A borboleta beija a violeta: Vá!

Um beijo é graça, que a mais não passa:

Dá?

Teme que a tente? É inocente... Vá!

Guardo segredo, não tenha medo...

Vê?

Dê-me um beijinho, dê de mansinho,

Dê!

Como ele é doce! Como ele trouxe,

Flor,

Paz a meu seio! Saciar-me veio,

Amor!

Saciar-me? louco... um é tão pouco,

Flor!

Deixa, concede, que eu mate a sede,

Amor!

Talvez te leve, o vento em breve,

Flor!

A vida foge, a vida é hoje,

Amor!

Guardo segredo, não tenhas medo

Pois!

Um mais na face, e a mais não passe!

Dois...

quinta-feira, 16 de abril de 2026

A luta continua

 

 

Na tempestade não perdi o caminho

Em dias de temporal contínuo

Sempre me aguentei

Sem alforge nem sandálias

Mas de firme esperança nunca descalço.

Empunhando o bastão da fé

As ravinas são vales frondosos

Seguro no cajado do amor

O deserto se torna aconchego.

Viver feliz mesmo sofrendo

Por nunca me saber só

É loucura saudável nesta viagem

Que me permite viajar sem capa

A capa do coitadinho

Do doente estigmatizado.

Esse traje nunca vesti

Por muito oferecido que fosse.

Nunca escondi o meu rosto

No jejum sempre sorri

Sozinho nunca vencerei a guerra

Com ajuda esta batalha ganhei

Para outras que forem surgindo

Estamos aí.

E como disse há anos atrás

Não… ainda não morri.

 

 

 

 

segunda-feira, 13 de abril de 2026

A viagem até ser pão

 

Ainda não despontara a aurora, quando começou a Viagem.

Partiu ligeiro para o amanho da Terra.

Passou sem descanço pela Sementeira.

Dormiu decidido a erguer-se de madrugada para a Rega.

Algum tempo depois, viu germinar o que seria o doirado Grão.

Trabalhando sem temer a canseira, avança de Sacho na mão.

Cuidando constantemente, na espera do desejado Fruto.

Passou em consolação pela Colheita.

Caminhando sempre alegre, num Labor desgastante

Antes da altura de descanço para nova etapa.

Porque a Viagem continua.

Depois de passar pela Eira, vai para o Celeiro ou Espigueiro.

Pelo caminho fala ao Moleiro, levando o Cereal até ao Moinho.

Onde  será triturado e transformado, com a força da Água do Rio gemendo baixinho.

Continua com trabalho a longa viagem, agora com o Moleiro, essa nobre profissão.

Passa de Grão a gostosa Farinha, condimento essencial à alimentação.

Nas casas antigas ela era amassada, depois cozia no Forno bem quente.

Era a riqueza em casa do pobre, era a alegria da nossa gente.

Eis que chegamos ao Pão, términus da viagem cansativa mas boa.

Na alegria de poder saborear, a sempre desejada Fornada da Broa.                                                                   

 

José Álvaro Rocha

domingo, 12 de abril de 2026

Ter tempo para falar com ele

 

 

Sentei-me à esquina do tempo tentado a falar-lhe se me desse tempo

Devo ter dormitado no tempo da demorada espera

Passou por mim e nem o senti

Será que já regressou?

Bati inutilmente à porta do tempo

Esperei, mas ninguém me responde

Como o poderei encontrar?

Foi-me dito que ele só fala com quem lhe dá valor

Com quem sabe conviver com ele e não o despreza

Se me desse a oportunidade de me retratar

Enquanto espero vou avaliando o que dele perdi

Recuperando hoje o desperdício do passado

Por não saber o que ele me reserva futuramente

O que sempre valorizei no tempo

É ele não fazer aceção naquilo que concede

Todos o temos por igual embora haja quem diga não o ter

Uns simplesmente passam por ele

Outros gastam-no ignobilmente

Havendo também quem o respeite sabendo aproveitá-lo

Aquele que o perde nunca mais o encontra

Vou sentar-me à porta dele

Até ele me apanhar na esquina e dizer não ter tempo para mim

Quando ele esteve sempre aí e eu não o parei.

 

 

quinta-feira, 9 de abril de 2026

Piripire no seu... para mim é refresco

 

 

Problemas todos temos

Só os meus têm solução

Qualquer sabe resolvê-los

Sem eu pedir opinião

 

Sabes… devias fazer assim

Porque não vais a tal lado?

Isso resolvia eu bem

O meu sim que é complicado

 

Não esmoreças tem confiança

Não te deixes abater

Eu sim ando muito mal

A minha vida nem queiras saber

 

Dizem… tem fé que Deus é grande

Ele sabe os problemas teus

Pena é nos deles dizerem

Que mal fiz eu a Deus

 

Anima-te mesmo sofrendo

Tem paciência que é o melhor

Tu até podes morrer

Mas eu estou muito pior.

 

 

 

 

 

 

 

terça-feira, 7 de abril de 2026

Emigração

 

 

Solidão e Esquecimento são países de acolhimento.

Porque a emigração vai estando constantemente na ordem do dia, atrevo-me a falar dela sem ter qualquer experiência, pois nunca tive o espirito de emigrante nem a coragem de quem emigra, por isso faço uma vénia e tenho muito respeito por aqueles que necessitam de o fazer.

Não sei se é do conhecimento geral, mas sei de pessoas que são emigrantes sem sair do país, e mesmo não saindo de casa.

Há dois países que os recebem e tomam conta deles sem precisarem de passaporte ou visto de entrada.

Um é o País chamado “Solidão”, outro o “Esquecimento”. Entram nesses países á força, e ficam por lá até serem esquecidos por completo.

Só saem desses países de acolhimento para emigrarem para o além, para uma outra Vida. Aí até são chorados, não sei dizer se será motivado pela perda do emigramte, se pelo rebate de consciência (remorso) por ter estado exilado tanto tempo nesses dois países de acolhimento, a “Solidão” e o “Esquecimento”.

Esta emigração também eu contesto, não por motivos de politiquice, mas pela solidariedade que estes emigrantes me merecem.

 

 

 

segunda-feira, 6 de abril de 2026

Quem ama sempre ganha

 

 

Cheguei, vi, mas não venci

Mesmo assim não esmoreci.

 

Combati, pelejei, mas não ganhei

Mesmo assim sempre lutei.

 

Com pertinácia persistente

A inércia se combate

Se a força for interior

Nenhuma arma me abate.

 

Entrei no jogo a perder

O florir da sorte a não ver

Mas não me assumo perdedor

Revendo as jogadas na mesa

Guardo os dados na certeza

Que ganha sempre o amor.

 

terça-feira, 31 de março de 2026

Espiral da vida

 

 

Quanto mais forte a mola

Maior a projeção.

Dá o pulo mais alto

Quem a pisa para saltar

Se a mola está na cabeça

Até podem saltar ideias

Alojada no coração

Multiplica em acrobacias gestos de amor

Se a mola está nos pés

Pode dar no melhor salto em altura

Quando a mola se fica pela carteira

Despoleta em tirania

A mola do outro perde a força

Vive retesada sem articulação

Enferruja e paralisa

Dando força à mola tirânica

Sempre solta em forte bolso

Bem oleada e aos pulos

Fazendo pular a vida de alguns

Espezinhando a vida de muitos.

 

segunda-feira, 30 de março de 2026

Estações

 

 

Despertei com chuva, ouvindo notícias de Inverno.

Gentes fustigadas por temporais destruidores.

Assoladas por ventanias de miséria.

Lama de fome entrando pelas brechas das paredes abaladas.

Ideais voando nos talhados arrancados pelo forte vento.

Corpos mirrados pela trovoada que cruza os céus, último bastião da esperança.

Quando surgirá Abril?

Para quando a Primavera?

Até quando soprará o autoritário ciclone?

Quanto tempo durará a tempestade do cifrão?

Despertei com chuva desejando uma aurora solarenga, que me faça regressar a um verão mesmo fingido, para voltar à liberdade hipócrita que me concedem, se…

E depois virá o tempo outonal, das folhas caídas, dos frutos maduros, colhidos para as mesas dos ricos, donos deste pobre pomar.

 

“A desgraça de uma nação pobre é que em vez de produzir riqueza produz ricos” (Mia Couto).

 

Por isso o sol não brilha para todos, e continua o Inverno chuvoso, para quem precisa de calor nos estômagos vazios, para quem necessita de bonança numa vida sem teto.

 

“A ameaça da morte pela fome, lança o homem contra o homem,

e os cidadãos contra os seus governantes” (Johnsom).

 

Para quando a primavera?

Hoje ainda despertei com chuva, e o céu carregado de negro não agoira tempos melhores.

Quem dera uma manhã de nevoeiro, em que surgisse por entre a bruma, não o histórico Sebastião, mas outro Rei, o farol dissipador.

O amor em forma de cruz, o raio fulminante do exemplo de serviço.

Até podia despertar de novo com chuva.

Até podia ser Inverno.

Mas teria o calor da esperança, na espera do sol do verdadeiro verão.

 

quinta-feira, 19 de março de 2026

Ao Pai

 

 

Agradeço e peço para todos

Para aqueles

Que como eu, o são

Para todos os que foram

E agora não…

Os contrastes.

O maravilhoso dom

Não de progenitores

Pais por vocação

De cabeça e coração

Os amados

Estimados

Reconhecidos e nunca abandonados

Novos e mais idosos

Ricos na doação

Os que legam aos filhos

A herança do amor

O valor da dedicação.

Obrigado, Pai

Pela graça de o poder ser.

 

Desanove de março.

 

 

Nada mais simbólico

Dia de S. José, dia do pai.

Quem é pai um vez no ano

Se calhar é pai por engano.

O pai que se quer verdadeiro

É pai a tempo inteiro.

Entre pai e progenitor

Salta a palavra amor.

Palavra igual a sentimento

Porque o pai não se dilui no tempo.

Feliz de quem um pai pode ter

Felicidade tem

Quem pai sabe ser.

Pais precisam-se.

Todo aquele que pai é

Faz de todos os dias

O dia do Pai

O dia de S. José.

 

terça-feira, 17 de março de 2026

Que bom ser feliz

 

Conheço gente tão infeliz, e tão pobre tão pobre, que só tem dinheiro

As pessoas felizes nem sempre estão felizes
Mas ser é diferente de estar e não é porque não estão felizes que deixam de ser felizes
As pessoas felizes sabem que a tristeza é uma espécie de chuva

Não dura sempre e limpa o pó dos caminhos
Depois da chuva, o sol brilha mais
As pessoas felizes cuidam da sua vida e, ajudam os outros , sem se meter na vida deles
Mesmo que tivessem tempo, não iriam desperdiçá-lo com coisas que não lhes dizem respeito
As pessoas felizes respeitam-se
As pessoas felizes têm vida própria, por isso não precisam da vida alheia
As pessoas felizes são aquelas que conhecem e sentem na pele as dificuldades da vida

Mas que reconhecem facilmente todas as coisas maravilhosas que a vida guarda para elas
As pessoas felizes gostam de repartir com os outros essas coisas maravilhosas que a vida lhes oferece
A felicidade dividida por todos nunca divide, une
A felicidade dividida nunca faz com que ninguém tenha menos, mas todos mais
As pessoas felizes podem não ter muito dinheiro, mas nunca são pobres
Ter pouco dinheiro não significa ser menos
Pobres são as pessoas que se julgam mais
As pessoas felizes são as mais ricas como pessoas
Ser mais como pessoa é a maior riqueza a que podemos aspirar
As pessoas felizes irradiam luz
As pessoas felizes não se apagam.

domingo, 15 de março de 2026

Uma "casa" Chamada Família

 

 

A família é uma casa grande e acolhedora onde mora o amor

A família é o estar em casa

Nessa casa em que nos amam como somos

Onde encontramos sempre a porta e os braços abertos

É a nossa primeira casa e a última

Mesmo que a nossa morada mude ao longo dos anos

É uma casa com alicerces sólidos

Alicerces é o nome que se dá às raízes das casas

Fundações que se agarram à terra que será sempre a nossa

Porque podemos deixar a nossa terra mas ela nunca nos deixa a nós

Por isso resiste às tempestades

Não deixa desmoronar o carinho nem as traves que nos seguram à vida

É uma casa onde podemos receber pessoas vindas de outras casas

Porque a família sabe encontrar forma de crescer e de renovar o amor

A família são os laços de ternura

Não são só os graus de parentesco

São os níveis de amor

A família é o nome que damos a quem nos quer bem e a quem nós queremos bem

É o permanecer no coração

Não há melhor lugar para morar

E mesmo aqueles que partem

Ficam sempre nessa casa

Na família.

 

sexta-feira, 13 de março de 2026

Amor que contagia

 

 

 

Bom dia, amor

Abriste os olhos

Sorriste

Brilhou o sol.

 

Ergueste teu corpo

Disseste bom dia

Cantaram os pássaros.

 

Pisaste o chão

Olhaste o céu

As flores se abriram.

 

Iniciaste as lides

Árduo trabalho

Amor feito vida.

 

segunda-feira, 9 de março de 2026

Às mulheres que o são

 

Para ti mulher que nasceste para amar

Que choras em silêncio para ninguém notar

Que ris com teu rosto porque ris de coração

Que do esforço do trabalho fazes doação

Podes ser menina, esposa, mãe ou avó

Que fazes da vida uma alegria só

Que sente sofrimento quando não compreendida

Mas que avança firme mesmo ferida

Que em tua vida trabalhas a dobrar

Num serviço aos outros como forma de amar

Mãe da humanidade no dom que te é dado

Renovando o mundo por cada filho gerado

Todos os dias mereces respeito

Mas celebro esta data como um grande feito

Harmoniosa flor que em jardim bem cuidado

Embelezas a vida a quem te mereça a seu lado

Dou graças a Deus por cada mulher

Que está neste mundo e o sabe “Ser”.

 

 

 

 

quarta-feira, 4 de março de 2026

Vida parada

 

 

Pensei em falar-te

Mas emudeci

Pensava ver-te

Mas não te vi

Recebi o convite

E recusei

O caminho era em frente

Mas eu recuei

A porta ficou aberta

Eu não entrei

Tu és a vida

Escolhi morrer

És salvação

Prefiro sofrer

Marquei encontro

Não compareci

Estagnei

Fiquei por aqui.

 

 

quinta-feira, 26 de fevereiro de 2026

Consumir antes de...

 

 

Tudo que nasce morre

Qualquer produto tem termo de validade     

Alguns mais que outros

A embalagem pode ser boa à vista

O produto ter condições admissíveis

Mas a data condiciona a circulação

Aos bens de consumo fora de prazo… lixo

Tanta gente a catar o lixo

Ansiosa na procura daquilo que caducou

O “respigador”

Àqueles que dentro das normas atiram fora

Ele agradece e mete para dentro do saco

Da casa

Do “buxo”

Para dentro da sua vida dura

Que dura graças a uma data caducada.

 

Todos temos prazo de validade

Mas o que conta é o estado do produto

E o que fazemos enquanto cá estamos.

Eu vou espreitando os rótulos

Mas não distingo a data-limite.

 

 

 

terça-feira, 24 de fevereiro de 2026

Enevitavelmente

 

 

Todos nascemos para viver um tempo

E depois...

Eu acredito que depois de partirmos, nascermos para uma outra vida sem limite

Não é fácil deixar para trás aquilo que se ama

Não é fácil seguir em frente quando não podemos levar connosco as coisas e os lugares que amamos

A não ser aquilo que fica nos bolsos da memória

Custa muito ficar quando perdemos de vista aquilo que o coração nunca deixa de ver

É como se a alma ficasse presa em pregos e arames invisíveis

E desses rasgões resultassem as malhas caídas que tentamos apanhar com a esperança de voltar a um novo começo

As despedidas são assim

Ir embora querendo ficar

Ficar não querendo ver partir aquilo que se ama

Mesmo sabendo que este é o caminho feito, sem nunca chegar a sair

O destino é assim também

Prega-nos uma partida e nós sem querer partir, vemos a partida do outro Não querendo, mas tendo de assistir à sua partida

Pertencemos ao que não possuímos

É assim.

sexta-feira, 20 de fevereiro de 2026

Tempo de Outono

 

 

Folha que danças no vento

Que sobes ao firmamento

Vem a meus braços, ensina-me a dançar.

 

Da-me um pouco da tua pureza

Agiliza-me com tua leveza

Para como tu poder voar.

 

Se pousas em chão revoltado

Por esse outono agreste e molhado

Que enregela o desejo, alojado em meu coração.

 

Ao ver-te  penso folha vencida

Noutras folhas que já sem vida

Dormem e morrem no frio chão.

 

domingo, 15 de fevereiro de 2026

Hoje quero falar de folhas

 

 

Das folhas de todas as cores, que pintam o chão no Outono

Folhas que deixam as àrvores despidas de suas cores

Àrvores cuja madeira é tranformada para fazer outras folhas

Folhas de papel que por mim são utilizadas

Sem nunca questionar a sua origem

Que risco e rabisco sem nunca parar

Folhas que são as páginas dos livros que leio

Folhas que depois de usadas deixo de lado

E só nelas pego quando penso na sua reutilização

Folhas que merecem de mim mais carinho

Para crescerem na minha consideração

Porque as há firmes em consistência e de belo recorte

Algumas grandes e fortes, outras pequenas e frágeis

Havendo quem bem manuseie as folhas nas suas mãos hábeis

Fazendo que as folhas lidas remexam a imaginação

Folhas que não conhecia mas hoje sei que as há

Folhas medicinais que nos fazem bem

As belas e poéticas “Folhas de Chá”.

 

 

quarta-feira, 11 de fevereiro de 2026

Fragilidades

 

 

Assim é o amor

Frágil

Como criança recém-nascida

Deve ser cuidado com carinho

Esmero

Leveza no tocar

Sem arranhar para não ferir

Bem alimentar para crescer

Florir

Entrega sem cobrança

Dar-se por inteiro

Na necessidade ser primeiro

Dar a mão

Na fragilidade não vista

Ao primeiro olhar

Na doença que não se nota

Só a vê quem a toca

Quem reconhece quem sofre

Quem vive a fragilidade da doença

O que bem trata porque é cuidador

Lida com um ser frágil

Sofre com o sofrimento

Com a dor

Com a fragilidade

Porque assim é o amor.

 

 

 

 

                                                                                                                          (Dia mundial do doente)

 

segunda-feira, 9 de fevereiro de 2026

A Viagem

 

 

Na estação da vida, aguardo o comboio do tempo.

É hora de iniciar nova viagem.

Despeço-me de tudo que para trás ficou e, de braços abertos, receberei o que há-de vir.

Na mala, levo comigo tudo aquilo que consegui guardar.

Levo risos de alegria e lágrimas de tristeza.

Levo gargalhadas soltas, levo palavras contidas.

Levo pedaços de vida.

Levo pedaços de sonhos, ainda por realizar.

E quando o meu destino alcançar, iniciarei nova caminhada.

Novos horizontes se abrirão.

Novas caras chegarão

Novos sorrisos, novas lágrimas…

Possivelmente, olharei para trás e contemplarei tudo o que deixei.

Tudo o que aprendi, tudo o que vivi…

O que amei e desamei, também aquilo que deixei de amar.

Porque a roda do tempo não pára e a vida deve seguir o seu rumo, por isso, não me despeço nem digo adeus, deixo simplesmente um até já.

Quem sabe se um dia, num desses apeadeiros da vida, de novo te venha a encontrar…

domingo, 8 de fevereiro de 2026

Constatação

 

 

Frutos já há muito se não veem

A resistência vai reduzindo

As folhas caíram com o vento

Os ramos partidos

O tronco carcomido

Que esperar senão a queda

O abate

Para combustível ao fogo

Tudo tem seu fim

Mas mete dó só de olhar

O que foste e aquilo que és

Já foste viçosa e forte

Eras o prazer de quem buscava tua sombra

O asilo da passarada

A proteção para as mais frágeis que te rodeavam

A imponência numa paternidade exercida

Porque tudo tem o seu fim

E tu como árvore estás nesse caminho

Até o vento quando te toca parece rezar por ti

Estou em crer que as tuas raízes

Por certo não resistirão

A um próximo temporal.

 

 

 

quarta-feira, 4 de fevereiro de 2026

A vida por um fio

 

 

4 de Fevereiro Dia mundial do cancro
(por ser o dia que é) 

 

Ouvi há dias uma expressão que me deixou a pensar sobre a sua veracidade. “A vida ganha outra perspectiva e dimensão, quando sentimos que a temos presa por um fio”.

Depois de pensar sobre o assunto, algumas dúvidas me assaltaram.

Haverá só alguns que vivem nessa situação, ou seremos todos nós, aqueles que ainda vivemos?

Haverá diferença na sustentabilidade e resistência do fio que nos prende à vida?

Será que até nesta situação existe diferença rico – pobre, fraco – poderoso?

Não creio, por isso insisto com algumas questões.

Quem está mais firme no fio que o prende à vida, eu que faço tratamento com o intuito de vencer um cancro, ou o jovem robusto e saudável que perde a vida num qualquer acidente de viação?

Quem vive mais sustentável, um velhinho enfermo ou um atleta que morre em competição?

Não é de hoje que adquiri a consciência que viver é um risco permanente, e que sei ser ténue o fio que me prende à vida, mas é nessa certeza que vivo, mas com muita confiança em quem sustém esse fio que me segura.

Não é um qualquer fio. Sei que não é um daqueles usados no manuseamento de marionetas. O fio que me liga à vida, liga-me também a outras coisas importantes e de muito valor que eu não dispenso.

Esse fio dá-me a liberdade para estar na vida e vivê-la, se fosse um grosso cabo, daqueles que usam os que pensam ter bem agarrada a sua vida, porventura não teria tanto espaço para me movimentar na vida que quero viver. Claro que tendo a vida presa por um fio, vou ter muito mais cuidado com as “tesouras” que de mim se aproximam.

 

Ps.  Para que conste:

O cerco à fragilidade continua.

 

 

terça-feira, 3 de fevereiro de 2026

A cada instante

 

 

Preciso pousar o fardo

Baixar a tensão

Descansar a mente

Repousar o corpo

Desanuviar atritos

Assentar ideias

Coordenar movimentos

Acalmar o grito

Tranquilizar o espírito

Sossegar desejos

Refrear impulsos

Travar a oralidade

Apaziguar refregas

Extinguir ruídos

Para viver em paz.

 

 

sexta-feira, 30 de janeiro de 2026

Vigiar

 

 

Quando penso em vigia

Nunca lembro o dia

Só a noite vem à ideia

Num mundo de portas fechadas

De janelas aferrolhadas

É o medo tecendo a teia.

 

O alarme accionado

O espaço todo vedado

A vigilância a cargo de outrem

Porque neste momento

A certeza do meu pensamento

É que não entra ninguém.

 

Mas há sempre aquele ladrão

Que não pede autorização

E a toda a hora salta

Mesmo com a porta fechada

Tendo a janela vedada

Pela parede mais alta.

 

Entra sem pedir licença

Nem sequer precisa de avença

Vindo do sul ou do norte

Quando menos se esperar

Ele acaba por entrar

O ladrão vestido de morte.

 

 

quarta-feira, 28 de janeiro de 2026

Descarrilamento

 

O comboio partiu da gare à hora marcada.

Tinha sido revisto tudo o que era necessário, para que a viagem pudesse acontecer sem percalços, ou tivesse de ser interrompida, além das paragens que estavam previstas.

Tem início a viagem, com os passageiros a bordo, comodamente sentados, perspectivando um bom percurso até o destino desejado.

Mas como em tudo na vida, por muita esperança que se tenha, e a alegria seja em dose excelente, há sempre acidentes que acontecem, e nesta viagem embora não tenha acontecido uma catástrofe, nem sequer fosse declarada calamidade pública o descarrilamento aconteceu. Felizmente não houve feridos graves, embora tivessem acontecido traumatismos cranianos porque muitos passageiros bateram com a cabeça, houve algumas feridas expostas e escoriações, porque ainda hoje as cicatrizes são visíveis. As composições não sofreram todas de descarrilamento, algumas nem sequer saíram da “linha”, mas todos os passageiros sofreram com o abalo, aliás a notícia da imprensa foi:

-Descarrilamento do comboio, e não a discriminação das composições que saíram da “linha”. Ainda não se sabe seguramente se houve erro humano, (frenesim exagerado do maquinista) pela velocidade imprimida, algo que se meteu na engrenagem, deficiência nos carris ou nas traves que os suportam, o certo é que o acidente aconteceu.

Do maquinista ainda não foi divulgado o seu estado de saúde, mas teme-se não seja dos melhores, e só com o tempo se saberá se ficará marcado por sequelas.

Já foi enviada por o local uma potente grua que pesa toneladas. A base é composta de persistência, a coluna vertical de alegria, e o braço extensivo é feito de amor, com o intuito de devolver as composições danificadas à via-férrea, para pôr de novo o comboio em andamento.

Dizem testemunhas que por certo houve ali mão de Deus, porque depois de se saber a gravidade do acidente, as consequenciais do descarrilamento podiam ser fatais.

Ainda bem que o comboio voltou a circular. Se este descarrilamento fosse numa família ou na comunidade, o que poderia acontecer?

 

domingo, 25 de janeiro de 2026

O que não quero querendo

 

 

Não quero, mas quero

Não quero roupa, quero agasalho

Não quero relógios, quero tempo

Não quero telemóveis, quero ligações

Não quero chocolates, quero doçura

Nas palavras e nos gestos.

Não quero lâmpadas, quero luz

Brilho no olhar.

Não quero desembrulhar prendas, quero desapertar o coração.

Quero risos

Não quero pressa, o amor leva tempo.

Não quero cadeiras, quero lugares

Há sempre lugar para quem nos quer bem

Não quero conversa, quero diálogo.

Não quero embrulhos, quero abraços

Muitos

Não quero encomendas, quero entrega

Não quero lembranças, quero memórias

Não quero que seja uma noite, quero que seja uma vida

Não quero uma vida qualquer

Quero uma…

“Vida Vivida”.

 

sábado, 24 de janeiro de 2026

Cercas

 

Prisioneiro nas grilhetas por mim forjadas

Na escuridão das trevas que teimo em criar

Ao aperto do coração por decisões tomadas

No caminho não feito por não avançar

Fossos e valas são separação

Que se enroscam na alma prisioneira

Torturam e ferem pela distância

Tolhendo a vida razão primeira

De coração algemado no aperto do peito

Num labirinto de paredes por escalar

Encerro-me em clausura abafando o grito

Duma revolta que faz por ficar

Se derrubar os muros por mim erigidos

As barreiras que impedem um bom viver

Vou firmando raízes no solo que sou

Na resistência à tempestade que faz doer

Mas hei-de soltar-me mesmo em ferida

Abrir as portadas para a luz entrar

Respirar fundo oxigenar a vida

Despir-me das lamúrias e continuar.