Despertei com chuva, ouvindo
notícias de Inverno.
Gentes fustigadas por
temporais destruidores.
Assoladas por ventanias de
miséria.
Lama de fome entrando pelas
brechas das paredes abaladas.
Ideais voando nos talhados
arrancados pelo forte vento.
Corpos mirrados pela trovoada
que cruza os céus, último bastião da esperança.
Quando surgirá Abril?
Para quando a Primavera?
Até quando soprará o
autoritário ciclone?
Quanto tempo durará a
tempestade do cifrão?
Despertei com chuva desejando
uma aurora solarenga, que me faça regressar a um verão mesmo fingido, para voltar
à liberdade hipócrita que me concedem, se…
E depois virá o tempo
outonal, das folhas caídas, dos frutos maduros, colhidos para as mesas dos
ricos, donos deste pobre pomar.
“A desgraça de uma nação
pobre é que em vez de produzir riqueza produz ricos” (Mia Couto).
Por isso o sol não brilha
para todos, e continua o Inverno chuvoso, para quem precisa de calor nos estômagos
vazios, para quem necessita de bonança numa vida sem teto.
“A ameaça da morte pela fome,
lança o homem contra o homem,
e os cidadãos contra os seus
governantes” (Johnsom).
Para quando a primavera?
Hoje ainda despertei com
chuva, e o céu carregado de negro não agoira tempos melhores.
Quem dera uma manhã de
nevoeiro, em que surgisse por entre a bruma, não o histórico Sebastião, mas
outro Rei, o farol dissipador.
O amor em forma de cruz, o
raio fulminante do exemplo de serviço.
Até podia despertar de novo
com chuva.
Até podia ser Inverno.
Mas teria o calor da
esperança, na espera do sol do verdadeiro verão.