quinta-feira, 26 de fevereiro de 2026

Consumir antes de...

 

 

Tudo que nasce morre

Qualquer produto tem termo de validade     

Alguns mais que outros

A embalagem pode ser boa à vista

O produto ter condições admissíveis

Mas a data condiciona a circulação

Aos bens de consumo fora de prazo… lixo

Tanta gente a catar o lixo

Ansiosa na procura daquilo que caducou

O “respigador”

Àqueles que dentro das normas atiram fora

Ele agradece e mete para dentro do saco

Da casa

Do “buxo”

Para dentro da sua vida dura

Que dura graças a uma data caducada.

 

Todos temos prazo de validade

Mas o que conta é o estado do produto

E o que fazemos enquanto cá estamos.

Eu vou espreitando os rótulos

Mas não distingo a data-limite.

 

 

 

terça-feira, 24 de fevereiro de 2026

Enevitavelmente

 

 

Todos nascemos para viver um tempo

E depois...

Eu acredito que depois de partirmos, nascermos para uma outra vida sem limite

Não é fácil deixar para trás aquilo que se ama

Não é fácil seguir em frente quando não podemos levar connosco as coisas e os lugares que amamos

A não ser aquilo que fica nos bolsos da memória

Custa muito ficar quando perdemos de vista aquilo que o coração nunca deixa de ver

É como se a alma ficasse presa em pregos e arames invisíveis

E desses rasgões resultassem as malhas caídas que tentamos apanhar com a esperança de voltar a um novo começo

As despedidas são assim

Ir embora querendo ficar

Ficar não querendo ver partir aquilo que se ama

Mesmo sabendo que este é o caminho feito, sem nunca chegar a sair

O destino é assim também

Prega-nos uma partida e nós sem querer partir, vemos a partida do outro Não querendo, mas tendo de assistir à sua partida

Pertencemos ao que não possuímos

É assim.

sexta-feira, 20 de fevereiro de 2026

Tempo de Outono

 

 

Folha que danças no vento

Que sobes ao firmamento

Vem a meus braços, ensina-me a dançar.

 

Da-me um pouco da tua pureza

Agiliza-me com tua leveza

Para como tu poder voar.

 

Se pousas em chão revoltado

Por esse outono agreste e molhado

Que enregela o desejo, alojado em meu coração.

 

Ao ver-te  penso folha vencida

Noutras folhas que já sem vida

Dormem e morrem no frio chão.

 

domingo, 15 de fevereiro de 2026

Hoje quero falar de folhas

 

 

Das folhas de todas as cores, que pintam o chão no Outono

Folhas que deixam as àrvores despidas de suas cores

Àrvores cuja madeira é tranformada para fazer outras folhas

Folhas de papel que por mim são utilizadas

Sem nunca questionar a sua origem

Que risco e rabisco sem nunca parar

Folhas que são as páginas dos livros que leio

Folhas que depois de usadas deixo de lado

E só nelas pego quando penso na sua reutilização

Folhas que merecem de mim mais carinho

Para crescerem na minha consideração

Porque as há firmes em consistência e de belo recorte

Algumas grandes e fortes, outras pequenas e frágeis

Havendo quem bem manuseie as folhas nas suas mãos hábeis

Fazendo que as folhas lidas remexam a imaginação

Folhas que não conhecia mas hoje sei que as há

Folhas medicinais que nos fazem bem

As belas e poéticas “Folhas de Chá”.

 

 

quarta-feira, 11 de fevereiro de 2026

Fragilidades

 

 

Assim é o amor

Frágil

Como criança recém-nascida

Deve ser cuidado com carinho

Esmero

Leveza no tocar

Sem arranhar para não ferir

Bem alimentar para crescer

Florir

Entrega sem cobrança

Dar-se por inteiro

Na necessidade ser primeiro

Dar a mão

Na fragilidade não vista

Ao primeiro olhar

Na doença que não se nota

Só a vê quem a toca

Quem reconhece quem sofre

Quem vive a fragilidade da doença

O que bem trata porque é cuidador

Lida com um ser frágil

Sofre com o sofrimento

Com a dor

Com a fragilidade

Porque assim é o amor.

 

 

 

 

                                                                                                                          (Dia mundial do doente)

 

segunda-feira, 9 de fevereiro de 2026

A Viagem

 

 

Na estação da vida, aguardo o comboio do tempo.

É hora de iniciar nova viagem.

Despeço-me de tudo que para trás ficou e, de braços abertos, receberei o que há-de vir.

Na mala, levo comigo tudo aquilo que consegui guardar.

Levo risos de alegria e lágrimas de tristeza.

Levo gargalhadas soltas, levo palavras contidas.

Levo pedaços de vida.

Levo pedaços de sonhos, ainda por realizar.

E quando o meu destino alcançar, iniciarei nova caminhada.

Novos horizontes se abrirão.

Novas caras chegarão

Novos sorrisos, novas lágrimas…

Possivelmente, olharei para trás e contemplarei tudo o que deixei.

Tudo o que aprendi, tudo o que vivi…

O que amei e desamei, também aquilo que deixei de amar.

Porque a roda do tempo não pára e a vida deve seguir o seu rumo, por isso, não me despeço nem digo adeus, deixo simplesmente um até já.

Quem sabe se um dia, num desses apeadeiros da vida, de novo te venha a encontrar…

domingo, 8 de fevereiro de 2026

Constatação

 

 

Frutos já há muito se não veem

A resistência vai reduzindo

As folhas caíram com o vento

Os ramos partidos

O tronco carcomido

Que esperar senão a queda

O abate

Para combustível ao fogo

Tudo tem seu fim

Mas mete dó só de olhar

O que foste e aquilo que és

Já foste viçosa e forte

Eras o prazer de quem buscava tua sombra

O asilo da passarada

A proteção para as mais frágeis que te rodeavam

A imponência numa paternidade exercida

Porque tudo tem o seu fim

E tu como árvore estás nesse caminho

Até o vento quando te toca parece rezar por ti

Estou em crer que as tuas raízes

Por certo não resistirão

A um próximo temporal.

 

 

 

quarta-feira, 4 de fevereiro de 2026

A vida por um fio

 

 

4 de Fevereiro Dia mundial do cancro
(por ser o dia que é) 

 

Ouvi há dias uma expressão que me deixou a pensar sobre a sua veracidade. “A vida ganha outra perspectiva e dimensão, quando sentimos que a temos presa por um fio”.

Depois de pensar sobre o assunto, algumas dúvidas me assaltaram.

Haverá só alguns que vivem nessa situação, ou seremos todos nós, aqueles que ainda vivemos?

Haverá diferença na sustentabilidade e resistência do fio que nos prende à vida?

Será que até nesta situação existe diferença rico – pobre, fraco – poderoso?

Não creio, por isso insisto com algumas questões.

Quem está mais firme no fio que o prende à vida, eu que faço tratamento com o intuito de vencer um cancro, ou o jovem robusto e saudável que perde a vida num qualquer acidente de viação?

Quem vive mais sustentável, um velhinho enfermo ou um atleta que morre em competição?

Não é de hoje que adquiri a consciência que viver é um risco permanente, e que sei ser ténue o fio que me prende à vida, mas é nessa certeza que vivo, mas com muita confiança em quem sustém esse fio que me segura.

Não é um qualquer fio. Sei que não é um daqueles usados no manuseamento de marionetas. O fio que me liga à vida, liga-me também a outras coisas importantes e de muito valor que eu não dispenso.

Esse fio dá-me a liberdade para estar na vida e vivê-la, se fosse um grosso cabo, daqueles que usam os que pensam ter bem agarrada a sua vida, porventura não teria tanto espaço para me movimentar na vida que quero viver. Claro que tendo a vida presa por um fio, vou ter muito mais cuidado com as “tesouras” que de mim se aproximam.

 

Ps.  Para que conste:

O cerco à fragilidade continua.

 

 

terça-feira, 3 de fevereiro de 2026

A cada instante

 

 

Preciso pousar o fardo

Baixar a tensão

Descansar a mente

Repousar o corpo

Desanuviar atritos

Assentar ideias

Coordenar movimentos

Acalmar o grito

Tranquilizar o espírito

Sossegar desejos

Refrear impulsos

Travar a oralidade

Apaziguar refregas

Extinguir ruídos

Para viver em paz.