sexta-feira, 30 de janeiro de 2026

Vigiar

 

 

Quando penso em vigia

Nunca lembro o dia

Só a noite vem à ideia

Num mundo de portas fechadas

De janelas aferrolhadas

É o medo tecendo a teia.

 

O alarme accionado

O espaço todo vedado

A vigilância a cargo de outrem

Porque neste momento

A certeza do meu pensamento

É que não entra ninguém.

 

Mas há sempre aquele ladrão

Que não pede autorização

E a toda a hora salta

Mesmo com a porta fechada

Tendo a janela vedada

Pela parede mais alta.

 

Entra sem pedir licença

Nem sequer precisa de avença

Vindo do sul ou do norte

Quando menos se esperar

Ele acaba por entrar

O ladrão vestido de morte.

 

 

quarta-feira, 28 de janeiro de 2026

Descarrilamento

 

O comboio partiu da gare à hora marcada.

Tinha sido revisto tudo o que era necessário, para que a viagem pudesse acontecer sem percalços, ou tivesse de ser interrompida, além das paragens que estavam previstas.

Tem início a viagem, com os passageiros a bordo, comodamente sentados, perspectivando um bom percurso até o destino desejado.

Mas como em tudo na vida, por muita esperança que se tenha, e a alegria seja em dose excelente, há sempre acidentes que acontecem, e nesta viagem embora não tenha acontecido uma catástrofe, nem sequer fosse declarada calamidade pública o descarrilamento aconteceu. Felizmente não houve feridos graves, embora tivessem acontecido traumatismos cranianos porque muitos passageiros bateram com a cabeça, houve algumas feridas expostas e escoriações, porque ainda hoje as cicatrizes são visíveis. As composições não sofreram todas de descarrilamento, algumas nem sequer saíram da “linha”, mas todos os passageiros sofreram com o abalo, aliás a notícia da imprensa foi:

-Descarrilamento do comboio, e não a discriminação das composições que saíram da “linha”. Ainda não se sabe seguramente se houve erro humano, (frenesim exagerado do maquinista) pela velocidade imprimida, algo que se meteu na engrenagem, deficiência nos carris ou nas traves que os suportam, o certo é que o acidente aconteceu.

Do maquinista ainda não foi divulgado o seu estado de saúde, mas teme-se não seja dos melhores, e só com o tempo se saberá se ficará marcado por sequelas.

Já foi enviada por o local uma potente grua que pesa toneladas. A base é composta de persistência, a coluna vertical de alegria, e o braço extensivo é feito de amor, com o intuito de devolver as composições danificadas à via-férrea, para pôr de novo o comboio em andamento.

Dizem testemunhas que por certo houve ali mão de Deus, porque depois de se saber a gravidade do acidente, as consequenciais do descarrilamento podiam ser fatais.

Ainda bem que o comboio voltou a circular. Se este descarrilamento fosse numa família ou na comunidade, o que poderia acontecer?

 

domingo, 25 de janeiro de 2026

O que não quero querendo

 

 

Não quero, mas quero

Não quero roupa, quero agasalho

Não quero relógios, quero tempo

Não quero telemóveis, quero ligações

Não quero chocolates, quero doçura

Nas palavras e nos gestos.

Não quero lâmpadas, quero luz

Brilho no olhar.

Não quero desembrulhar prendas, quero desapertar o coração.

Quero risos

Não quero pressa, o amor leva tempo.

Não quero cadeiras, quero lugares

Há sempre lugar para quem nos quer bem

Não quero conversa, quero diálogo.

Não quero embrulhos, quero abraços

Muitos

Não quero encomendas, quero entrega

Não quero lembranças, quero memórias

Não quero que seja uma noite, quero que seja uma vida

Não quero uma vida qualquer

Quero uma…

“Vida Vivida”.

 

sábado, 24 de janeiro de 2026

Cercas

 

Prisioneiro nas grilhetas por mim forjadas

Na escuridão das trevas que teimo em criar

Ao aperto do coração por decisões tomadas

No caminho não feito por não avançar

Fossos e valas são separação

Que se enroscam na alma prisioneira

Torturam e ferem pela distância

Tolhendo a vida razão primeira

De coração algemado no aperto do peito

Num labirinto de paredes por escalar

Encerro-me em clausura abafando o grito

Duma revolta que faz por ficar

Se derrubar os muros por mim erigidos

As barreiras que impedem um bom viver

Vou firmando raízes no solo que sou

Na resistência à tempestade que faz doer

Mas hei-de soltar-me mesmo em ferida

Abrir as portadas para a luz entrar

Respirar fundo oxigenar a vida

Despir-me das lamúrias e continuar.

 

quarta-feira, 21 de janeiro de 2026

Construção

 

 

Nem ventos nem tempestades

Derrubam o meu querer

Nem chuvas torrenciais

Me fazem retroceder

 

Na noite fico gelado

Se me deixo dormir ao relento

Mais gela quem fica parado

Tolhido sem movimento

 

Sendo firme no caminhar

Avanço a todo o instante

Não sei ainda quando parar

Mas tenho um guia constante

 

Viver a construir

É norma de quem trabalha

Quem não constrói no amor

Vive a vida como calha

 

O alicerce é a base

De toda a construção

Há pilares na nossa vida

Que são suportes de união

 

Com a casa edificada

Mantê-la é condição

Abrir as janelas ao mundo

E as portas do coração.

 

 

segunda-feira, 19 de janeiro de 2026

Foi bom, mas já foi

 

 

O Natal vem sempre não há engano

Mas passa depressa

E demora mais um ano

Se  mal vivi o acontecimento ele cessa

O Natal é mais um caso de tempo perdido

Não deixando de ser o espelho do ano vivido.

Fazer de conta é sempre fingir

Dizer que sim, mas não querer ir

Ou então faltar para não mentir

Se marca presença logo vai fugir.

Para quê forçar se não sente nada

Nada faz sentido numa impostura pegada

De contradição numa ceia forçada

Como fica a família nesta caldeirada.

O que era alegria é hoje obrigação

O que era encontro é agora encontrão

Para haver a festa bastava união

Cada vez faz mais frio no que foi comunhão.

Será que custa ser honesto e leal

Conseguir discernir quando causo mal

Ganhar consciência do mundo real

E fazer da família a essência do Natal.

O calor da fogueira não dá para aquecer

Enquanto o coração de gelo permanecer

Um Natal sem amor mais vale esquecer

Até conseguir deixar Jesus nascer.

 

sexta-feira, 16 de janeiro de 2026

A música do amor

 

 

O amor também se toca

Até se pode dançar

Fora eu melhor executante

Melhor saberia amar

 

Amar como bom músico

Tocar a música do amor

Sentir sua vibração

Nas cordas do coração

 

Ter teclas no pensamento

Ser dueto em sinfonia

O solo não é para todos

Ter suave enleamento

 

Num amor sempre musicado

Alegre andamento

Amor bailado

Por um par a compasso

Dançando num estreito abraço

 

Quando o amor se envolve

Em melodia que dissolve

A dureza duma vida

Quando o amor é bem tocado

Há música que nunca finda.

 

 

 

sexta-feira, 9 de janeiro de 2026

A dor de quem fica

 

 

Quem parte deixa saudade

Quem fica sente a partida

Todos perdemos quem amamos

São contingências da vida.

Palavras de pouco valem

Quando sangra o coração

O tempo nem sempre cura

Mas é ajuda na compreensão.

Sentir o abraço amigo

Alivia a dor sentida

Por vezes a dor robustece

E faz-nos fortes na vida.

Andando neste caminho

Sujeitos à dor e sofrimento

Deve o amor que nos rodeia

Ser remédio e nosso alento.

Não deixemos morrer a esperança

Porque aqueles que amamos

Já estão num caminho diferente

Caminho que todos calcamos.

Quem parte deixa saudade

Quem fica que reze aos céus

Pode ser consolo na despedida

Quando a viagem é para Deus.

 

quarta-feira, 7 de janeiro de 2026

Ainda tenho vida com metas

 

 

Sempre

Mais curtas talvez

Quanto maiores mais falíveis

Já faltam pernas

Coração e pulmão

Delinear metas plausíveis

Ter presente as capacidades

Despertar em cada dia e sentir a vida

Olhar o espelho e sorrir

Agradecer a meta atingida

Projetar as horas seguintes

Com muitas ganas, mas sem certezas

Se for preciso parar para restabelecer

Faça-se a paragem

Mas nunca por acomodação

Assim as metas serão cumpridas

Sem nunca serem compridas.

 

 

sexta-feira, 2 de janeiro de 2026

A Paz que se precisa

 

 

A gente precisa de paz,

De amor, de humildade

De carinho e bondade

Desejo-nos um feliz ano novo

A gente precisa de amor,

De silêncio e beleza

Justiça, de igualdade

Desejo-nos um feliz ano novo

Mais um ano que passa

Sempre o mesmo cenário

Por vezes sem graça

A gente se diz que este ano

Pode ser que seja a boa

Tudo vai mudar

Outra vez migrantes afogados

Na Praia das crianças mortas

O mar, seus reflexos

Vamos torcer para o ano que vem

Vamos lá banhar-nos

A gente precisa de paz,

De amor de humildade

De carinho e bondade

Desejo-nos um feliz ano novo

Em cima dos aviões de caça

Em qualquer parte dos drones que atingiram

O céu, as suas estrelas,

A gente se diz que no ano que vem

Será para sonhar

Em todo lugar de cabeças inclinadas

Todos nos seus ecrãs postos

Podemos ter esperança

Se disser-mos que para o ano

Nos vamos falar

A gente precisa de paz,

De amor de humildade

De carinho e bondade

Desejo-nos um feliz ano novo

A gente precisa de amor,

De silêncio e beleza

Justiça, de igualdade

Desejo-nos, desejo-nos

Um bom ano.