segunda-feira, 29 de dezembro de 2025

Que fazer da vida

 

 

Alguma coisa terá que se fazer da vida, nem que seja só vivê-la

O que já não será pouco, menos será não merecê-la

Viver é como quem corre atrás do bem que se quer muito

É coragem, é audácia

Viver é construir, viver é fecundar

Viver contra as adversidades é viver em cheio, é ter vida cheia

Cheia de problemas mas de alegrias e vitórias também

Porque a pressão que me fazem aqueles que deviam estar comigo

É o oxigénio para a minha corrente sanguínea

É  a armadura que me permite ir à luta, e lutar em todas as frentes

É aí que vejo que a minha pequenez confunde os grandes gigantes que se propõem a sufocarem-me

É aí que eu vejo, «que quando me sinto fraco é que sou forte»

Porque ficam sempre do meu lado outros anões que se agigantam

Quando vêm em meu auxílio, e eu não prescindo da sua presença 

«O Senhor é minha luz e salvação aquém temerei? 

O Senhor é o protector da minha vida de quem hei-de ter medo?» 

Se quero fazer alguma coisa da vida não preciso falar muito

O silêncio é de prata, e silêncio precisa-se

Por isso preciso de me calar mais, de ver melhor e calar

Calar principalmente quando o que digo é nada

Calar quando só faço barulho

Calar quando não tenho razão e saber calar quando a tenho

Calar quando estou calado, porque por vezes só com o olhar eu falo

É preciso calar quando falo alto

E falar sem medo se o que digo concorre para o bem de todos

Calar para ouvir quem devo

Calar para ouvir melhor

Calar e aceitar o que Deus quer de mim e aquilo que me quer dar

Calar para melhor servir

Fazer sem falar

Falar calado

Calar para dizer bem 

Silêncio precisa-se

Precisa-se também de homens e mulheres com coragem para o fazer

Porque, “alguma coisa terá de se fazer da vida.”

 

sábado, 27 de dezembro de 2025

Tempo de Natal

 

 

Faça o tempo que fizer

Natal é tempo de luz

A discórdia já é passado

Porque o futuro é Jesus

O presente é o nascimento

De um Menino Salvador

Nascendo pobre me faz rico

Se vivo num tempo de amor

Nos sorrisos das crianças

Vejo paz e a luz do futuro

As lembranças são o passado

Que o tempo torna maduro

É Natal nos sinos que tocam

Dizendo que em minha mão

Estará um tempo de esperança

Se houver sol em meu coração

 

domingo, 21 de dezembro de 2025

Natal Navegado

 

 

A navegar pelo mar do mundo
À procura de encontrar o Natal
Já parei em muitos portos
Num rumo nada normal               

Fala comigo Natal
E se a ti eu não chegar
Anda tu ao meu encontro
Estou cansado de remar

Para os pequenitos és alegria
Para os maiores stresse constante
Ocupados com as coisas
Esquecemos o mais importante

E Jesus nasce por nós
Nasce pobre para dizer
Que no mundo somos iguais
Se Ele connosco viver.                 

Quero entrar Jesus no presépio
Que me mostra que num curral
Pode haver um trono de rei
A luz do verdadeiro Natal.         

No Natal trocamos presentes
Ó que alegria que grande emoção
Jesus também fica contente
Se eu lhe der meu coração          

Precisamos ser pastores
E visitar Jesus menino
Teremos sempre uma estrela
Que nos guia no caminho.           

E o barqueiro sempre a remar
Com pouca força, mas muita fé
Para encontrar o Natal a sério
Há que remar contra a maré.       

Será preciso um milagre
Que mais terá de acontecer?
Não sabemos ler o mundo?
Deixemos Jesus nascer.               

Presépio à vista é um porto seguro
É porta aberta é menos um muro
Deixemos entrar a Luz
Deixemos nascer Jesus

 

DEIXEMOS NASCER JESUS.  

 

segunda-feira, 15 de dezembro de 2025

Os profetas da desgraça

 

Porque será?

Se sempre foi assim… não sei

Que hoje acontece…sim

Vejo, ouço e sinto

É quase lei

Se algo me molesta

Casos de morte ou doença

Em qualquer outra fatalidade

Aparece todo o mundo

Amigos conhecidos ou nem por isso

Lamentando doendo-se

Prestando um pronto apoio

Mostrando a sua solidariedade.

Ao contrário

Se a vida me corre de feição

Porque até comprei um novo carro

Mudei para uma melhor casa

Quantos se mostram contentes com a minha alegria?

Onde estão as palavras de parabéns afeto e calor

Quem mostram satisfação?

Lancei-me num novo projeto

Um sonho a realizar

Poucos se abeiram

Até custa cumprimentar.

Nas desgraças tudo bem

São muitos os sentimentos

As alegrias que vivo

São pouco contentamento.

 

 

sábado, 13 de dezembro de 2025

Resistência



É viver sabendo ser
É ser sabendo viver
É dizer quando se fala
É falar quando se diz
É ver sem ter que olhar
É olhar sem ter que se ver
É dar sem receber
É sem receber ter para dar
É trabalhar para ter
É nada ter a trabalhar
É não comprar precisando
É não ter com que comprar
É denunciar por sofrer
É sofrer sem acusar
É não julgar sendo juiz
É ser juiz e bem julgar
É amar quem não merece
É merecer e nunca amar
É resistir sendo fraco
É fraquejando avançar
É olhar o mundo e sentir
É sentir o mundo mudar


domingo, 7 de dezembro de 2025

O não à passividade

 

 

Anda não fiques parado

O tempo se esvai e não volta

Se não podes correr caminha

Se as pernas já não ajudam

Gatinha.

Mas vai

Vai ao encontro

Não fiques numa esperança quieta

Se a noite não avançasse

Nunca surgiria o dia

Se as nuvens não se dissipam

O sol jamais se via

O encontro só se dá

Se te fizeres encontrado

E é muito melhor caminhar

Quando tens alguém ao teu lado

Por isso anda

Não fiques parado.

sexta-feira, 5 de dezembro de 2025

Corrida de fundo

 

 

Anos após anos 

Sempre a treinar

Provas e mais provas 

Sem lugar no pódio

Onde fui chegando nunca foi a meta

A prova rainha continua a decorrer

O terminus pode acontecer a qualquer momento

A linha de chegada ainda se não alcança

Poderá surgir depois da próxima curva

Na corrida de fundo dosear as forças é essencial

Controlar a respiração é exercício prioritário

Desfalecer obriga a paragem

Chegar ao fim objetivo fatal

Nem sempre ganha quem primeiro chega

Doloroso para quem corre descalço

Penoso fim para quem ousa entrar em prova

Martírio maior 

Para quem é impedido de participar

Cortando assim a meta 

Sem na prova entrar.

 

 

segunda-feira, 24 de novembro de 2025

Não há engano se..

 

 

O algodão não engana

Se for usado limpo

As palavras nunca ferem

Se o pensamento é reto

O olhar nunca faz mossa

Se o coração transborda amor

A cólera é sempre contida

Se o perdão prevalece

Até a noite finda

Se o sol nos visita

As nuvens também se afastam

Se o carinho pairar

A tempestade tende a amainar

Se a alegria surgir

O coração melhor respira

Se o amor é oxigénio

O espelho é sempre fiel

Se a alma é transparente

A vida é sempre vivida

Se eu quero vive-la.

 

 

domingo, 23 de novembro de 2025

Quem é o pobre

 

“Pobres dos pobres que são pobrezinhos” (Guerra Junqueiro)

 

Há um dia em que se lembra o pobre

Será que quem o é esquece?

Ou será lembrança para aquele

Que faz o pobre e não reconhece?

Alguns são e não sabem

Outros são e não suportam

Vivem sempre revoltados

Escondendo o que todos notam

Pobres conheço, mas há muitos

Que são muito ricos na vida

Ricos há que são pobres no viver

Por fazerem pobres por medida

Há pobres e pobrezinhos

Vitimizam-se e querem ser

Outros vão por outros caminhos

Sendo pobres são ricos

Antes e depois de morrer

 

“Não é de protagonismo que os pobres precisam.

Mas de amor que sabe esconder-se e esquecer o bem realizado”

(Papa Francisco)

“Existem, no entanto, várias formas de pobreza.

E há entre todas uma que escapa às estatísticas e aos indicadores:

É a penúria da nossa reflexão sobre nós mesmos.”

(Mia Couto)

 

sábado, 22 de novembro de 2025

Ardente chama

 

 

Se chamas eu ouço

Quando as chamas são o grito

Eu ouço e vejo.

Sinto o calor do fogo

Ouço o crepitar das chamas

E quanto mais alto chamas

Mais as chamas se propagam

Mais o calor atiça e sufoca.

Vejo e ouço as chamas

Se chamas.

É no teatro do fogo

Que as chamas se combatem

Se chamas.

E quando chamas

O fogo amaina

As labaredas se extinguem

E do rescaldo fica a cinza

A calma no grande fogo

Que agora extinto

Sempre reacende

Porque a chama persiste.

E quando as chamas são o grito

Eu ouço e vejo

Se chamas eu ouço.

 

domingo, 16 de novembro de 2025

Descobrindo caminho

 

 

 

Depois de entrar

Difícil é encontrar a saída

A gruta é negra

Labiríntico o caminho

Melhor é parar 

Tentar a saída pela aragem fresca

Se a sentir.

Cansei dos fortes vendavais de sangue

Do enxurro caudaloso das lágrimas

Do viver encostado às paredes da tempestade

De perder-me a olhar

Olhar sem ver

Que a vida é o meu mar

Um mar não só de água feito

Também é vida

Vida que acaba

Quando é crematório sem fogo

Quando as cinzas são as fundas areias

E eu que nunca aprendi a nadar

Nunca quis

Nadar

Em águas impostas

Em falsas apostas

Que não faço porque no meu abrigo

Na gruta

De tão escura

Nunca iria ver os dados.

 

 

sexta-feira, 14 de novembro de 2025

Borrasca

 

 

Depois da intempérie no alto mar

Atraquei em desabrido porto.

Minha embarcação fragilizada

Com o casco constantemente açoitado

Abre rombos que procuro esconder

Fendas profundas, esguias e traiçoeiras.

Os surdos gritos lancinantes

Que só a noite perscruta

Jazem no fundo féretro

Ecoando agoirentos num lamento.

A âncora nunca lançada

Faz do barco velha dançarina

Ao som de frenética sinfonia

Tocada por altas ondas.

E o mar que nunca acalma…

Para quando um sol de nascente

Até quando a noite de breu

Este estio desesperante

Golpe certeiro que rasga a vontade da luta.

Amainai tenebrosas ondas

Aplacai-vos ventos assassinos

Apiedai-vos da minha pobre embarcação

Deixai que lhe repare os danos

Que lhe sare os profundos lanhos

E mesmo que jamais navegável

Presa por grossas amarras

Fundeada eternamente no porto

Permiti-lhe um casco limpo.

 

sábado, 8 de novembro de 2025

Cultivar o pão nunca comido

 

 

Escrevo do lado invisível da imaginação

Nas sombras da noite de baça luz

Na parede por dentro da escrita

Ergo o candeeiro à altura dos olhos

E vejo os pés descalços que correm

Atrás da vida que sempre lhes foge

Por entre os dedos de grossos calos.

Como a paveia da erva atrás do segador

Ficam também aqueles que morrem

Sem nunca terem provado o pão que semearam

Imaginai o que nunca tivestes nas mãos

Além das alfaias do trabalho escravo

Correi pois atrás do merecedor sonho

Desta ceifa terrestre que vos ceifa a vida

E que viver vos parece castigo

Porque viver é mais que aquilo

Que na vida vos é concedido.

 

sexta-feira, 10 de outubro de 2025

O poquê de escrever

 

 

“O valor do homem não está no sitio onde dorme, mas na verdade do seu sonho.”

Tenho uma vontade enorme de escrever, não porque queira ser algo que não sou, mas para falar de quem me olha sem me ver

Também sei que quanto mais escrevo menos o mundo me engole

Não me esquço de quem sou, só porque o mundo não se lembra de mim

Escrever é a forma de não me deixar cair no mundo

De segurar o que me escorrega das mãos

A minha vida não se mede pelos batimentos cardíacos

Mede-se nas vezes que sobreviveu aquilo que a podia ter matado

Por isso mesmo que ninguém leia, vou continuar a escrever

Mesmo que o mundo não queira ler, continuarei a escrever

Porque é naquilo que deixo escrito que o coração se põe de joelhos, para agradecer à vida

Escrevo para não esquecer quem sou

Se for esquecido paciência, tenho muito mais medo de esquecer de mim

Quando escrevo é por mim, e só para mim

Para não rebentar

Se o que escrevo for por alguém aproveitado, tanto melhor

Escrevo porque amo

E quando amamos o amor sente-se em tudo

Como se o amor fosse uma coisa que se prepara antes de viver

E escrever, é ter a vida sempre a nascer.

quarta-feira, 24 de setembro de 2025

Aviso

 

 

Não… eu não morri.

Um boato nunca é confirmação

Dizer porque alguém disse

Pode ser leviandade

Afirmar o que se não sabe

Jamais será razão

Para a mentira se tornar verdade

 

Não… eu não morri.

Ainda nem fiz o aviso

E porque sempre estive avisado

É em pleno juízo

Que afirmo em qualquer lado

Maior é a vida que me espera

Que aquilo que já vivi

Porque a vida é sempre

Projecto inacabado

 

Não … eu não morri.

Mas todos nos cruzamos com a morte

Mas nesse cruzamento

Sempre saí vencedor

Há quem alegue ser sorte

Porque jogo em cada momento

O trunfo que vale o amor

 

Não… eu não morri.

Pois viver é obrigação

Se vida para mim é dom

Vou caminhar nesta luz

Só fará sentido a cruz

Se houver ressurreição

 

Não… eu não morri.

Acreditem não morrerei

Se o “Mestre” morre para eu viver

Não viverei para morrer

Até porque eu não avisei

 

 

                                                                                               9 - 4 - 2012

segunda-feira, 22 de setembro de 2025

A Arca da Memória

 

 

A arca velha

As recordações

O tempo de brincar sem brinquedos

A arca velha das recordações

Sem motivos lúdicos.

Uma história contada

Com atenção ouvida

Um misto de alegria triste

Tristeza inconsciente

Numa alegria reinante

Por dificuldades superadas

Cada passo uma vitória

Alento no crescimento

O físico e o outro.

As ajudas

Humana e sobretudo a Divina

A arca velha da memória

De muro facilmente transponível

Porta escancarada

Transparência constante.

A arca velha

Pintada pelo pó do amor feito vida

Partículas contagiantes

Turbilhão perene

Afagos do pensamento.

A arca velha

Caixa do tesouro da perseverança

Baú de fantasias conscientes

Realidades dum tempo sempre vivido.

 

domingo, 24 de agosto de 2025

Amor adiado

 

 

Desce brilhante estrela

A iluminar meu caminho

Para ir a casa dela

Pular a sua janela

E em seu corpo fazer ninho.

 

Nem o sol durante o dia

Com todo seu esplendor

Renova minha alegria

Da tristeza que trazia

A lágrima salgada de dor.

 

Viver por ti é o que faço

Se durmo és meu sonhar

Quero sentir teu abraço

E vencido pelo cansaço

Em teu colo descansar.

 

Das cinzas hei-de voltar

Teus olhos serão fogueira

Ardendo no fogo do teu olhar

Vou em teu coração morar

Para ter uma vida inteira.

quarta-feira, 20 de agosto de 2025

Solidão

 

 

A solidão como opção

É balsamo que cura

Nunca solidão

Há pessoas que gostam de estar sozinhas

Pessoas que precisam de estar sozinhas

Como eu

É que estar sozinho não significa sentir-se sozinho

Uma coisa é não ter ninguém ao pé

Outra coisa é não ter ninguém que nos dê a mão

E às vezes é preciso

Podemos estar sozinhos sem sentir solidão

E podemos sentir-nos absolutamente sós

Numa sala cheia de gente

Estar sozinho não é estar só, é estar a sós

Estar a sós connosco

É sermos a nossa própria companhia

Ouvirmos a nossa voz de dentro

 Sem o ruído que vem de fora

E cala os nossos pensamentos

Estar sozinho não é ser sozinho

Estar sozinho é coisa do corpo

Sentir-se sozinho é assunto da alma

Às vezes, precisamos de estar sozinhos

Porque a alma precisa de espaço.

 

domingo, 10 de agosto de 2025

Ao redor também arde

 

 Alguns por reacendimento 

Mas com força 

Quando arde à nossa volta

O calor sufoca

O fumo não deixa respirar.

Quem fica cercado pelo fogo

Ou descobre fuga e rápido reage

Ou as forças se extinguem

E o corpo vacila e cai.

Este incêndio não acontece

Só na minha “tapada”

Há outros pinhais e matos

Que se pensavam protegidos

E o fogo também aí lavra.

Temos de estar em prevenção permanente

Cuidar dos terrenos que são nossos

E ser solidários com os outros

Eles precisam da nossa ajuda

O apoio deve ser constante

Porque este fogo aparece do nada

E sem aviso

E o Cancro

Não é combatido só com água.

 

sábado, 9 de agosto de 2025

Não vou levar



Não preciso de levar nada
Ninguém leva nada
Não vale a pena ter malas grandes
E perder tempo a escolher o que queremos levar
Não vale a pena pensar na melhor maneira
De arrumar a roupa para que caiba toda
Há pessoas que se preocupam demasiado
Com coisas que não vão usar
Ainda não perceberam
Nada nos fará falta
Ninguém leva nada daquilo que tenha comprado
Nada que tenha tirado
As únicas coisas que levamos são as que deixamos
Só nos pertence aquilo que damos.

 

quarta-feira, 6 de agosto de 2025

A caixa dos sonhos

 

 

Vivo a vida como um sonho

Um sonho sempre vivido

Porque é possível viver a sonhar

Não é grade a minha caixa

De tão cheia não a consigo fechar

Por isso os sonhos são livres de sair e me tomar

“O sonho comanda a vida”

A minha é sonho comandado

Nem todos os sonhos são bons

Alguns não realizáveis

Outros interrompidos

Aqueles que vivo porque possíveis

São aroma contagiante

Ar respirado a cada instante

Abrindo caminho a novos sonhos

Que sonho ainda viver

A vida sempre muito me deu

Esses valores me fazem rico

Porque o sonho ninguém mo tira

A caixa de meus sonhos não é grande

Mas existe a transbordar.

 

“Enquanto houver um louco, um poeta e um amante, haverá sonho, amor e fantasia.

Enquanto houver sonho amor e fantasia, haverá esperança”

quarta-feira, 23 de julho de 2025

Contingências

 

 Vejo o escorrer da vida

Quando em dia de chuva

Olho os escorridos vidros de uma janela.

 

Sinto a vida a pingar

Quando descuidado e de peito aberto

Assumo ao exterior do meu abrigo.

 

Vejo a vida voar

Quando a imagino no alto

À boleia nas asas de uma gaivota.

 

Sinto o ruir da existência

No abafado trovão ensurdecedor

Que se despenha no alto mar.

 

Vejo os cruzamentos da vida

Do interior gradeado

Na prisão dos limites impostos.

 

Sinto o tenaz aperto

Da vida agrilhoada

Numa liberdade só dita.

 

Vejo e sinto o viver num cadinho

Que na fornalha derrete a matéria

Para moldar uma nova vida.

terça-feira, 15 de julho de 2025

Sinais do corpo

 

«Segunda-feira 11 de Julho

No átrio do infantário frequentado pelas netas

Com os pertences na mão a Leonor e a Luísa

De olhar muito sério mas calmo

Fitam-me de alto a baixo, encostando-se nas minhas pernas.

Diz a Leonor:

- Tu ontem foste à feirinha.

Queria ela dizer:

- Tu ontem pregaste-nos um grande susto.

A Luísa a cada palavra dizia que sim acenando com a cabeça.

Dei-lhes um beijo, tocado pela preocupação.

Meninas maravilhosas.

Explicando-me foi-lhes dizendo. Foi uma indisposição passageira.

Já passou.

A Leonor, do alto dos seus 5 anos continuou.

- Sabes avô, a mamã diz que:

“O nosso corpo dá sinais quando não está bem”

Muito bem disse eu, é isso mesmo.»

Perfeito para explicar o acontecido.

 

É isso são sinais

E o meu corpo vai dando alguns

Aqueles que entendo contorno

Mesmo sendo só de perigo

Outros são de obrigação

Há sinais que nos mandam ao chão

Por sorte ainda não havia buraco

E deu para continuar a circular

Com velocidade limitada

Até o próximo susto.

 

(Faz nove anos, 4 depois de intervenção cirúrgica.)